Bancos de Rodolitos
Estrutura
Os bancos de Rodolitos são habitats bentônicos estruturados por algas vermelhas calcárias, na forma de pequenos nódulos não articulados, que crescem em camadas, formando estruturas de formato arredondado, fusiforme ou irregular, com aparência pedregosa. Apenas a parte superficial dessas estruturas é a alga ainda viva, na forma de um recobrimento calcificado, rígido, de cor vermelha ou rosácea. A parte interna do nódulo já está morta, de cor branca, rígida. Sucessivas camadas de algas calcificadas se depositam sobre as anteriores, aumentando progressivamente o tamanho dessas estruturas, que podem até vir a formar estruturas recifais de pequeno porte.
A maioria dos leigos que têm contato com rodolitos interpretam essas estruturas como pedras coloridas, ignorando sua origem biológica, similar a das conchas e esqueletos de coral. Também ignoram o longo tempo que levam para se formar, que se deve a baixa taxa de crescimento das algas calcificadas.
Uma grande biodiversidade está associada aos rodolitos (Schubert et al., 2025), sendo possivelmente o principal serviço prestado por esses ecossistemas Fixos aos nódulos ocorre uma variedade de organismos, desde outras algas marinhas, em sua maioria não calcificadas, a animais sésseis, como crinoides, cnidários e esponjas.
Dessa forma, um observador que analise os Bancos de Rodolitos verá, em grande parte dos casos, um conjunto de nódulos calcificados sobre o fundo oceânico de cascalho, aos quais estão aderidos outros organismos, formando eventualmente florestas em miniatura. Quando esses organismos que cobrem os bancos são de maior tamanho, por exemplo no caso da alga parda Sargassum, com até mais de um metro de comprimento - ou muito densos, como no caso de crinoides, os nódulos que os sustentam podem nem estar visíveis.
Uma característica desse conjunto que os distingue dos demais habitats bentônicos é a movimentação dessas comunidades ao sabor das ondas e das correntes oceânicas, uma vez que os nódulos estão soltos e os organismos sobre eles atuam como velas, aumentando seu arrasto (1). Isso torna esses habitats particularmente sensíveis a eventos extremos de tempestade onde ocorra aumento da movimentação da água do mar e da altura das ondas, causando seu deslocamento inclusive em profundidades maiores que as normais, onde o efeito de ondas é pouco pronunciado.
Entre os nódulos, sobre o fundo, se movimentam crustáceos de maior tamanho, como lagostas e caranguejos.
Um outro compartimento onde ocorre vida é o interior dos nódulos. O desgaste progressivo cria cavidades internas e canais, que são ocupadas por pequenos invertebrados, funcionando como micro-habitat protegidos. São muito abundantes nessas cavidades pequenos crustáceos, poliquetas e ofiuroides.
No compartimento bentônico ocorrem peixes de diferentes níveis da cadeia trófica, que se alimentam das algas, de miríades de invertebrados associados aos nódulos e epífitos sobre as algas e dos próprios peixes. Esses peixes podem ser tanto residentes como cardumes de passagem.
Distribuição
Os Bancos de Rodolitos ocorrem em toda a costa atlântica da América do Sul, sendo importantes, por exemplo, na fixação inicial das algas gigantes que estruturam os habitats de Bosques de Kelps da Região Subantártica no limite sul do continente.
Entretanto, são especialmente abundantes na plataforma continental ao norte do litoral do Estado do Rio de Janeiro, cobrindo uma área que equivale aproximadamente a da Grã Bretanha (Berchez et al., 2022). Ali, vão desde o limite do infralitoral até a borda da plataforma continental apresentando, conforme a região, distintas fisionomias, abundância e composição taxonômica.
Por exemplo, na região ao largo do Espírito Santo, a cerca de 20km da costa e com profundidade variando entre 15-20m (Berchez et al., 2024), ocorrem na forma de grandes manchas (dezenas de metros) de nódulos soltos cobertos por uma grande densidade de algas pardas e vermelhas (até 2328 g.m−2). Essas manchas são atravessadas por canais (ao redor de 5-10m de largura) onde o fundo oceânico não contém organismos macroscópicos, sendo constituído por sedimento calcário. Como os rodolitos são soltos, as algas sobre eles causam um arrasto por efeito do movimento de ondas e da intensa corrente do Brasil (norte para sul), de tal forma que a comunidade apresenta uma constante mobilidade, contrastando com outros ecossistemas recifais.
Embora sua distribuição seja contínua, é importante destacar sua ocorrência junto aos recifes de coral de Abrolhos, onde são abundantes entre as formações coralinas, desempenhando um importante papel na estrutura biológica da região.
Deve-se destacar ainda que, na região da Foz do Amazonas, encontram-se bancos de rodolitos, que são objeto de preocupação em função das pretensões de se instalar ali campos de mineração e exploração de petróleo.
Serviços ecossistêmicos
Os rodolitos, em si, apresentam grande relevância para o suporte físico à biodiversidade e para a facilitação de outros formadores de habitat e espécies fundamentais, como kelps, esponjas e bivalves (Schubert et al., 2025). Mais do que isso, o ecossistema como um todo presta serviços ecossistêmicos fundamentais.
Um deles é seu papel como sumidouro de carbono, tanto na biomassa viva, como no interior dos nódulos calcários, ou seja, a parte morta, interna, do rodolito. Neste último caso, isso se deve a que o calcário, constituído de carbonato de cálcio (CaCO₃), é formado a partir do íons bicarbonato (HCO₃⁻) e carbonato (CO₃²⁻) dissolvidos na água do mar a partir do CO2 do ar. Esse carbonato de cálcio formado a partir das algas calcárias está não apenas nos nódulos, mas também no cascalho que ocupa grande parte da plataforma continental, originado a partir da erosão dos rodolitos devido a movimentação da água do mar, Esse cascalho é encontrado, junto com fragmentos maiores, até dezenas de metros de profundidade, sendo um depósito de carbono gigantesco, cuja magnitude é estimada ainda de forma muito pouco precisa.
Os Bancos de Rodolitos também prestam serviços ecossistêmicos fundamentais para os habitats ao seu redor, com um caráter regional. Por exemplo, fornecem alimento, refúgio e local para reprodução não só para os organismos residentes, mas também para organismos de passagem, como peixes e mamíferos. Participam da recomposição de espécies de ecossistemas ao seu redor, como costões rochosos, recifes de arenito ou recifes de coral, atuando na reposição quando esses habitats são sujeitos a impactos ambientais naturais (ex. tempestades) ou antrópicos (ex. vazamento de petróleo).
Dessa forma, em termos econômicos, são fundamentais para a manutenção de grande parte dos recursos econômicos, destacando-se peixes. Por outro lado, uma grande parte da produção de lagostas é proveniente daí, onde esses animais vivem, se alimentam e reproduzem.
Fragilidades e impactos ambientais
Os Bancos de Rodolitos tem uma capacidade de regeneração lenta, devido às baixas taxas de crescimento das algas calcificadas que formam os nódulos, estruturadores ambientais dos quais depende toda a comunidade biológica. Dessa forma, a recuperação de impactos naturais, antrópicos e relacionados às mudanças climáticas globais, é lenta. O aumento de tempestades e agitação da água do mar é esperado como consequência das mudanças climáticas globais.
As condições a que essas comunidades estão submetidas varia conforme a sua localização e profundidade. Bancos mais próximos à costa estão sujeitos à movimentação constante da água do mar, que pode se intensificar muito em períodos de tempestades intensas, quando a amplitude de onda é maior, atingindo maiores profundidades e com maior energia.
Os dados de Berchez et al. (2024), de locais da plataforma continental ao largo da costa do Estado do Espírito Santo, com profundidades entre 15-20m, mostram que tempestades intensas resultam em danos intensos, com uma redução dramática da biodiversidade e biomassa. No evento observado, grande parte dos rodolitos foram soterrados pelo sedimento calcário, junto com os organismos situados sobre eles. Os organismos com adaptações para resistir ao recobrimento por sedimento passam a ocorrer com maior abundância relativa. Como exemplo, podem ser citadas as algas do gênero Caulerpa, que possuem longos ramos horizontais extensos, de onde partem ramos eretos, que conferem à planta uma estabilidade sobre substrato inconsolidado.
Esse resultado ocorre a partir da sinergia entre vários fatores ambientais, onde diversos impactos simultâneos amplificam os danos às comunidades. Além do impacto da água em si, o sedimento calcário e os próprios rodolitos são levantados pela agitação da água do mar, atuando como projéteis, que causam dano e um efeito de lixiviação nos organismos vivos. Com a suspensão do sedimento, os organismos vivos são total ou parcialmente soterrados.
Embora não existam estudos a respeito, em comunidades situadas a maior profundidade é provável que a consequência seja um aumento da sedimentação, dificultando trocas de gases e nutrientes e a alimentação tanto de organismos fotossintetizantes como de heterótrofos. Além disso, com maior suspensão de partículas na água, a penetração da radiação solar é reduzida, com consequências para a fotossíntese das algas, calcificadas ou não.
O aumento de tempestades e agitação da água do mar é esperado como consequência das mudanças climáticas globais. O mesmo dióxido de carbono que está causando as mudanças climáticas pode, entretanto, ter um uma consequência muito mais drástica para os bancos de rodolitos, com consequências globais, devido a acidificação da água do mar.
Um dos maiores riscos globais para os bancos de rodolitos é a acidificação da água do mar, causada pela absorção do dióxido de carbono (CO₂) atmosférico. Aproximadamente um quarto do CO2 emitido é absorvido pela água do mar resultando na sua acidificação, Quando o CO₂ entra em contato com a água, forma ácido carbônico (H₂CO₃), que se dissocia liberando íons hidrogênio (H⁺), responsáveis pela diminuição do pH da água. Isso reduz a disponibilidade de íons carbonato (CO₃²⁻), fundamentais para a formação do carbonato de cálcio (CaCO₃), o principal componente das estruturas dos rodolitos.
Desde o início da Revolução Industrial, no Século XIX, o pH médio dos oceanos já caiu de cerca de 8,2 para 8,1 — uma acidificação de aproximadamente 30% na escala logarítmica de acidez. Esse processo compromete diretamente a calcificação das algas vermelhas e de outros organismos marinhos.
Em uma escala maior de tempo, a continuidade desse fenômeno pode gerar um perigoso mecanismo de retroalimentação. Depósitos profundos de cascalho calcário, formados pela erosão de rodolitos ao longo de milhares de anos, funcionam como imensos reservatórios de carbono. Se a acidificação atingir esses depósitos, parte do carbonato pode começar a se dissolver, liberando CO₂ de volta para a água e, em seguida, para a atmosfera, o que intensificaria ainda mais a acidificação. Esse processo, por ter semelhança ao que acontece quando agitamos uma garrafa de refrigerante e liberamos o gás antes retido, é conhecido como “Efeito Coca-Cola”.
Além dos efeitos das mudanças climáticas, os bancos de rodolitos estão sujeitos a uma série de pressões diretas causadas por atividades humanas. Essas pressões variam conforme a região, mas podem ter efeitos profundos — e muitas vezes irreversíveis — sobre a estrutura física e a biodiversidade desses habitats.
A pesca de arrasto, em especial, representa uma ameaça significativa. O contato direto das redes com o fundo marinho causa a fragmentação dos rodolitos, danifica os organismos fixos sobre os nódulos e levanta sedimentos que podem soterrar áreas inteiras. O efeito cumulativo dos impactos continuados em escala espacial ampla impede a regeneração natural das comunidades. A sobrepesca, embora menos visível, também compromete a integridade ecológica desses ambientes. A retirada excessiva de espécies residentes, como peixes e lagostas, altera a dinâmica trófica e pode levar à simplificação do ecossistema, enfraquecendo sua resiliência.
Outra ameaça crescente é a mineração submarina, tanto para extração de calcário quanto de metais raros. Os depósitos calcários formados a partir de rodolitos e recifes de corais na plataforma continental, ao longo de milênios, vêm sendo alvo de interesse econômico. Desde o início da década de 1980, o calcário da nossa costa vem sendo explorado para fins de calagem e enriquecimento do solo, que, no Brasil, é predominantemente ácido. A retirada desse material compromete não apenas a estrutura física dos bancos, mas também o estoque natural de carbono ali armazenado, que é em grande parte liberado para a atmosfera, tanto durante o tratamento para produção do calcário em pó quanto no próprio solo.
Um outro fator preocupante de impacto é a exploração, transporte e produção de petróleo em regiões onde ocorrem bancos de rodolitos. Embora não haja dados específicos, é possível que o vazamento de óleo ocorrido em 2019 — o maior já registrado no Brasil — tenha tido grande impacto nesses ambientes. Nesse episódio, manchas densas de petróleo passaram, a partir de agosto, a aparecer nas costas do litoral nordeste ao longo de uma extensão superior a 3.000 km, possivelmente oriundas do vazamento de um petroleiro em alto-mar. Devido à sua densidade, esse óleo era transportado por ondas e correntes junto ao fundo marinho, possivelmente impactando drasticamente os bancos de rodolitos.
Atualmente, a maior parte dos poços de exploração de petróleo está situada na margem continental dos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo, o que potencialmente expõe esses ambientes — onde os rodolitos ocorrem em grande abundância — a riscos frequentes. Nas discussões relativas à exploração de petróleo na Foz do Amazonas, praticamente não são veiculadas considerações sobre os impactos potenciais aos bancos de rodolitos ali presentes. Vazamentos, construção de dutos, instalação de plataformas e o tráfego de embarcações podem causar impactos tanto diretos quanto indiretos, com consequências que ainda são pouco compreendidas.
Referências
Schubert, N., Magris, R. A., Berchez, F., Bernardino, A. F., Ferreira, C. E. L., Francini-Filho, R. B., Gaspar, T. L., Pereira-Filho, G. H., Rossi, S., Silva, J., Sissini, M. N., Soares, M. O., Tâmega, F. T. S., Tuya, F., & Horta, P. A. (2025). Rhodolith beds in Brazil—A natural heritage in need of conservation. Diversity and Distributions, 31(1), e13960. https://doi.org/10.1111/ddi.13960
Berchez, F., Horta, P. A., Sissini, M. N., Tiago, C. G., Turra, A., Schubert, N., Santos, I. R., & Cabral, A. (2022). Brazil: Heed price of marine mining for an alternative fertilizer. Nature, 607, 239.
Berchez, F., Dias, G., Sissini, M. N., Horta, P. A. & Tiago, C. G. (2024). A historical perspective of the Brazilian rhodolith beds: Discovering a hidden ecosystem. In P. A. Horta & M. N. Sissini (Eds.), Brazilian Rhodolith Beds (pp. 15-27). Springer Nature Switzerland. https://doi.org/10.1007/978-3-031-61449-1_2
Haddad, E. A., & Araújo, I. F. (2025). Shades of blue: The regional structure of the ocean economy in Brazil. npj Ocean Sustainability, 4(1), 23. https://doi.org/10.1038/s44183-024-00042-4